A Liberdade é vermelha


Gláucia Machado


Eu não sabia bem o que fazer com aquela caixa cheia com meus pequenos troféus de vida. Parece que guardamos objetos para recordar quem somos ou para materializar as memórias, mas agora esses itens apenas se misturavam à poeira.
Nas mãos eu tinha um bilhete de meu pai, com um elogio a mim; um retrato meu quando criança, feito a tinta esferográfica vermelha pela minha mãe; uma menção de louvor pelos bons serviços prestados à comunidade; várias fotos. Achei dois bilhetes daquele garoto que, na infância, desfazia os laços em meus cabelos e implicava com meu jeito de andar. Pensei que, se eu tivesse cedido aos seus pedidos insistentes, ele hoje poderia estar ali comigo.
Mas nunca me casei. Era uma convicção, um excesso de princípios. Sempre mantive minha casa em ordem, não queria que alguém chegasse de surpresa e soltasse risinhos, como faziam na casa da minha prima. Nem filhos, como ela, eu tive, não teria essa desculpa.
A aposentadoria chegou pontual, como sempre chegavam as coisas na vida. O que não veio junto foi a sensação de plenitude que prometeram nos discursos de despedida. Em mais um ou dois meses meus colegas de trabalho não se lembrariam muito bem o meu nome. Isso aconteceu com aquela colega de sotaque melodioso do sul.
Eu paguei impostos com devoção cívica, frequentei a igreja com assiduidade dogmática e coordenei incontáveis campanhas de doação de agasalhos. Por que estava experimentando esse silêncio sepulcral? Não era culpa, era vazio. Uma espécie de eco onde antes havia rotina.
Eu, decidida a manter a dignidade, ia ao mercado, à igreja ou à hidroginástica olhando por cima do nariz. Minha avó sempre dizia que quem muito abaixa a cabeça topa nos outros. Minha mãe revirava os olhos para esses ditados.
Os meses se acumulavam em silêncio e fastio. Em casa já não tinha gavetas para arrumar. As amigas priorizavam compromissos entre casais, assim, aos poucos e naturalmente, reduzimos os encontros.
Eu não bebia, isso não pegava bem. Também não saía para dançar sozinha e alimentar os comentários na escola dominical.
No início do verão, uma xícara de chá esfriou, enquanto eu revisava contas e boletos acumulados e não acreditei na novela da minha vida. Eu ia precisar cancelar a hidroginástica e talvez reduzir o mercado.
Eu entreguei à vida tudo o que eu podia, mas, aparentemente, não era o que a vida esperava, pois ela não sorria para mim agora.
Foi quando um dia, olhando vitrines para fugir da realidade, vi uma lingerie vermelha. Desviei o olhar, depois sorri, pensando em como eu ficaria ridícula. Mas não havia ninguém para me condenar em casa. Encarei a vendedora com a compostura de quem compra um lenço de seda. Ela deve ter acreditado quando eu disse que era para uma sobrinha. Saí apressada da loja com a peça.
Esperei escurecer, como se a noite fosse a guardiã de toda vergonha. Conferi duas vezes as cortinas e vesti desajeitada a peça.
Foi um desafio posicionar o celular sobre uma pilha de livros de Direito. Ajustei o temporizador três vezes, tropecei no tapete e, por fim, olhei para a tela incrédula. Não via nas fotos indecência, mas vida. Havia uma mulher que eu desconhecia ali.
Um arrepio me percorreu e agi com um impulso que eu havia sufocado por anos. Criei um perfil em um site de encontros, com fotos provocativas, mostrando apenas o suficiente. Escrevi umas poucas palavras, publiquei as imagens e fechei o computador como quem encerra um segredo de Estado.
Na manhã seguinte, descobri que o mundo não desabara. Ao contrário: havia mensagens elogiosas, seguidores, propostas de assinatura. Nas primeiras semanas, ganhei o suficiente para pagar duas contas atrasadas. Mais que isso, ganhei risadas. Ri sozinha, alto. Ri da própria ousadia.
O passo seguinte exigiu mais coragem. Criei um perfil como acompanhante. Estabeleci regras claras, horários definidos, limites inegociáveis. Os encontros eram jantares, conversas, passeios reservados. Descobri que homens mais jovens apreciavam minha segurança, a escuta atenta, minha elegância clássica. Alguns queriam intensidade, ou apenas companhia sem pressa e sem exigências. Outros buscavam conselhos.
Era um mundo novo. Aprendi a aceitar elogios sem pedir desculpas. As dívidas diminuíram. A solidão, também.
Certo domingo, uma antiga conhecida notou meu sorriso mais leve e meu olhar mais vivo. Dei uma desculpa e sorri tranquila.
Em casa, diante do espelho, não via escândalo nem desvio. Via coerência tardia. Percebi que durante anos confundira moral com renúncia absoluta, como se felicidade fosse prêmio reservado aos imprudentes. Agora, dignidade não me parecia rigidez, mas consciência das próprias escolhas.
Encontrei naquela lingerie vermelha minha forma de liberdade. Nunca é tarde para se atualizar a própria biografia.

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Gláucia Machado - locutora e escritora

E-mail: glauciam4@gmail.com

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