Os frutos da Ilha Redonda


Gláucia Machado


Cheguei de bicicleta com os demais, depois de aportarmos no cais da ilha, e logo mirei as arcadas da casa principal da vinícola. No trabalho árduo que eu havia iniciado havia alguns meses, agora encontrava ânimo para me levantar tão cedo. O clima estava um pouco mais ameno, embora ainda fosse verão, mas as plantações já demonstravam a força que esperávamos.
Enquanto eu prendia mecanicamente a bicicleta, com a mochila pesando nas costas, senti um leve estremecimento. Podia ser apenas cansaço, mas, por algum motivo, lembrei-me de Ben. Nossas últimas conversas não foram boas e ainda me causavam certo receio.
Trocar o escritório no centro de Montreal por conduzir visitantes no Domaine de L’Île Ronde (Domínio da Ilha Redonda) trouxe-me alguma segurança e tranquilidade para pensar nos próximos passos. A propriedade, no entanto, havia mudado de mãos havia pouco mais de um ano. A negociação envolvera alto custo e um bom seguro; porém, apenas sete meses depois, os novos proprietários tentaram se desfazer da ilha e da vinícola. Não surgiram interessados com capacidade de pagar o valor pretendido.
Meus colegas estavam inquietos. Sabiam que já não existia a condução apaixonada da família fundadora. O senhor Greg parecia bastante empenhado em verificar relatórios à distância: um negociante que buscava, agora, uma forma de alcançar de qualquer maneira o retorno do investimento.
Ainda era muito cedo, e o ar se aquecia aos poucos, levantando da terra aromas adocicados. Enquanto eu me dirigia à entrada da sede pelo calçamento de pedras, tentava lembrar-me da conversa com minha terapeuta e encontrava, no som dos meus passos rompendo o silêncio da manhã, o primeiro pequeno prazer do dia.
Um dos rapazes que cuidavam das parreiras passou com algumas ferramentas presas ao cinto e me cumprimentou, bem-humorado. Ele amava aquelas parreiras e cuidava delas com orgulho e carinho. Não pude deixar de comparar seu sorriso bonito e sincero ao semblante de alguns colegas da antiga corporação onde eu trabalhava — e onde conheci Ben.
O salário nunca seria o mesmo, mas o ar leve daquela manhã e o cumprimento do meu amigo já compensavam tudo. As visitas só começariam às 10h e, às 15h, o último agendamento encerraria o roteiro do dia. Mesmo durante a semana, famílias inteiras e alguns turistas de fora queriam aproveitar ao máximo a estação. Em breve, o inverno rigoroso mudaria todo o cenário.
Enquanto os primeiros visitantes não chegavam, aproveitei para ajudar a organizar o terraço, onde as mesas e os ombrelones vermelhos abrigariam conversas animadas e refeições leves, regadas a vinho. Melhorar a qualidade das bebidas ali produzidas era um dos tantos desafios que a vinícola enfrentava. Os novos administradores haviam mudado muitas regras da casa, e alguns clientes sinalizavam que a comida e o serviço já não tinham a qualidade que me encantara quando me casei e recebi meus convidados, numa tarde promissora, naquele mesmo terraço.
Depois que decidi trabalhar lá, minha mãe manifestou preocupação. Não me repreendeu por eu ter deixado um emprego que pagava melhor, mas achou que ao menos eu deveria ter procurado algum lugar onde Ben não pudesse me encontrar. Eu, porém, considerava o Domaine simples e agradável — o lugar perfeito para o que eu precisava naquele momento. E não acreditava que meu ex fosse capaz de algo sério. Ele estava apenas aborrecido com a mudança na vida dele; o tempo, contudo, trataria de dissolver essa sensação.
O dia transcorreu dentro do esperado. Eu via o olhar admirado dos visitantes enquanto explicava a plantação em espaldeiras e como o aquecimento global favorecia o crescimento da produção de uvas no Canadá, especialmente das uvas Chardonnay. O desastre para uns pode ser oportunidade para outros. De fato, a vindima de 2007, em Ontário, bateu recorde de produção e, entre aquele ano e 2013, a safra só aumentou. Eu me encantava com isso e conseguia transmitir empolgação nas palavras.
Os vinhos que o Domaine produzia — como o La Fortune, o Héron-Blanc ou o Rosé de L’Île — ainda não eram a melhor expressão do terroir, mas eu vendia a ideia de seu consumo da melhor forma possível, explicando os encantos da ilha. Queria que meus visitantes acreditassem e levassem essa ideia a outras pessoas; assim, ao menos, eu sentiria que meu trabalho ali tinha valor.
No dia 24 de agosto, Tadros, o Rebelde, apresentaria-se novamente na vinícola — música para atrair mais movimento. As visitas eram momentos encantadores. Não entrávamos na parte mais nobre do parreiral, mas os visitantes podiam caminhar entre algumas colunas. Era uma área reservada ao passeio, com lindos cachos cheios de vida. Os açúcares estavam ali, bem concentrados, e, em um mês, já seria possível colher as uvas brancas. As destinadas aos tintos esperariam um pouco mais.
O inverno, como de costume, foi rigoroso; a primavera veio amena; e o calor do verão trouxe sabor a cada bago. Para mim, era emocionante acompanhar o esplendor que se formava. Isso fazia com que eu me afeiçoasse à propriedade e aos amigos que ali já tinha feito.
Na volta da visitação ao vinhedo, cada pequeno grupo seguia animado para a sede, comentando as novas descobertas e ansioso pelos ombrelones vermelhos, que se destacavam ao longe como um refúgio sob o sol, já alto, deixando todos sedentos. Um vinho bem resfriado, na temperatura certa, seria o prazer perfeito para encerrar o passeio.
O verão seguia assim e, durante o inverno, eu me dedicaria a auxiliar nos preparativos para a venda da nova produção e para a divulgação.
No fim daquele dia, ajudei novamente a guardar o material do terraço antes de retornar, pelo pequeno porto da ilha, a Saint-Sulpice. Separei as toalhas que seguiriam para a lavanderia e, enquanto outras colegas conversavam animadas e fechavam os ombrelones, decidi entrar na sede para pegar uma caixa em que eram guardados os suportes dos arranjos que enfeitavam as mesas.
Nesse momento, passei por um rapaz que normalmente ajudava no caixa do pequeno empório. Ele não disse palavra, mas pareceu assustar-se comigo: estacou e, em seguida, voltou-se para a saída da casa, partindo rapidamente. Talvez estivesse atrasado para pegar carona em algum barco particular, pois, normalmente, nosso grupo voltava junto, um pouco mais tarde — e ele não apareceu mais.
Com tudo terminado, pegamos as bicicletas e voltamos ao porto. Era um cansaço gratificante, apesar de tudo, pois o clima permitia que sentíssemos uma brisa amena enquanto pedalávamos pelo terreno quase plano. Amarramos as bicicletas no local de sempre e entramos no barco a tempo de retornar a Saint-Sulpice.
A travessia sobre as águas do São Lourenço era corriqueira para mim, mas eu sempre reconhecia a grandeza daquele rio. Eu já estava descendo do barco quando meu coração deu um salto: o carro estacionado na rua próxima era igual ao de Ben. Fixei o olhar para ter certeza, mas, à distância, não consegui distinguir se era ele. De todo modo, o motorista era um homem, estava sozinho e nos observava. Logo deu partida e saiu lentamente.
Voltei ao meu pequeno apartamento com tantos pensamentos que mal me lembro de como cheguei em tão pouco tempo. Respirei fundo algumas vezes enquanto me preparava para um banho. Fiz um lanche rápido e logo me deitei, tentando deixar no travesseiro todas as preocupações. O dia seguinte começaria cedo novamente.
A noite pareceu longa: imagens distorcidas e confusas, irreais demais até para um sonho. Acordei sobressaltada, certa de que já era hora de levantar, e culpei o despertador por não ter tocado, mas ainda eram 3h30. Levantei-me para beber um pouco de água quando percebi, pela janela, um clarão.
Meu coração falhou uma batida, e minha mente rodopiou por um segundo. Abri a cortina e, dali, pela rua Notre-Dame, era possível perceber que o clarão vinha de chamas altas. A ilha! Lembrei-me apenas do casaco.
Na rua, alguns poucos que saíam de algum turno de trabalho — ou da casa de algum amante — paravam o carro para ver a cena, igualmente incrédulos. Ao longe, sirenes quebravam o silêncio, e o tempo pareceu sair do prumo. Uma eternidade passou em minutos e, logo, o dia amanheceu.
Eu me sentia impotente diante do medo, das dúvidas e da desolação. A estiagem favorecera as chamas; os bombeiros levaram algum tempo até alcançar a propriedade; e eu era apenas uma das funcionárias. Atônita, esperei tudo se acalmar e voltei ao apartamento.
Não sentia cansaço nem fome. Apenas troquei rapidamente de roupa. Precisei localizar um velho conhecido, que aceitou levar-me à ilha somente depois de os bombeiros a deixarem. Logo as autoridades fechariam tudo para iniciar as investigações, mas o rio garantia que isso demoraria o bastante para eu chegar a tempo.
Atravessamos as águas. Saltei do barco quando ele alcançou a ilha e pedi ao condutor que, por favor, não me deixasse ali: que me aguardasse; eu voltaria assim que pegasse alguma coisa — disse isso como desculpa.
Peguei a bicicleta amarrada perto do cais e corri o quanto meu fôlego curto permitia. O ar pesado invadiu-me, e eu parei, horrorizada. A casa principal parecia agora um velho castelo de pedra em ruínas. Dei a volta rapidamente em direção aos vinhedos, que se revelaram reduzidos a quase nada. O aroma adocicado das manhãs iluminadas foi substituído pelo odor acre da destruição. Quem teria sido capaz disso? Chorei.
No meio da devastação, vi alguém ajoelhado. Desci da bicicleta e caminhei devagar. Não sei se por vergonha de estar onde não deveria, por medo de me envolver com o ocorrido ou por falta de forças. Ali estava meu amigo de sorriso bonito, agora fitando uma raiz entre as mãos. Ainda havia vida nela, e tenho certeza de que partilhamos a mesma esperança naquele instante.
Ele se voltou para mim, com os olhos úmidos de dor e emoção. Não havia sorriso; apenas os olhos e duas almas machucadas se encontrando. Soluçamos juntos.
É estarrecedor perder para a força lenta do destino. Sorrateiro, ele trama em segredo e nos leva apenas aonde devemos ir. Nunca soube ao certo o que causou aquele incêndio de grandes proporções. Mas certamente o episódio traria consequências distintas para todos os que passaram por ali.
Enquanto o jornal de Montreal e outras mídias divulgavam o incêndio que devastou o Domaine de L’Île Ronde, as autoridades se organizavam para a investigação. E eu e meu amigo entendíamos que a mudança de nossas vidas estava em nossas mãos.

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Gláucia Machado - locutora e escritora

E-mail: glauciam4@gmail.com

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