Gláucia Machado
O frio era cortante, fora da coberta pesada de algodão puro, tecida lá mesmo. O sol parecia também ter preguiça de sair. Era julho, férias, inverno. Certamente as folhas estariam brilhando com uma camada da geada.O que fazia a gente se levantar, um pouco, era a vergonha de continuar deitada, com a casa toda já em movimento. Mas o que movia e aquecia mesmo o corpo, era saber que o fogão já estava aceso.
Aquele som estalando, o cheiro da lenha, o calor dourado do fogo. Logo estávamos todos na cozinha, e os sons se misturavam às conversas lentas. Os aromas se somavam aos biscoitos e ao café forte. No almoço, o feijão e o arroz perfumados, e a carne de lata.
Havia dias em que todos se reuniam para preparar as pamonhas, rir e conversar.
É uma lembrança que dá conforto e saudade....
De volta a nossa cidade, logo vinha a visita ao outro lado da família, sempre aos domingos. Aí era uma riqueza de temperos, muito alho, cebola, pimenta de cheiro e cheiro verde nos caldos, no peixe, na galinha à cabidela, tudo fresquinho, escolhido com cuidado. Comida simples, saborosa, alimentando generosamente toda aquela gente.
E havia aqueles segredos que só esse lado da família guardava: torta de feijão com camarão e o cuxá.
Sei que os melhores chefs do mundo nos entregam experiências memoráveis.
Mas tenho pra mim que minhas avós e minhas tias carregavam a comida com histórias antigas, com afeto e com um jeito que não se tempera mais.